>>> Sudário Mesquita, 23 anos, cearense, educador social, colaborador da base CUFA Lagamar, depôs para o documentário “Selva de Pedra – A Fortaleza Noiada” sobre sua experiência com o uso de crack e assuntos relacionados
(por Sofia Antonácio, da equipe de Comunicação CUFA Ceará)

Sudário Mesquita - Educador Social e Colaborador da CUFA - CE
CUFA Ceará: O que o influenciou a começar a usar drogas?
SUDÁRIO MESQUITA: Começou por influência de amigos. A primeira vez, aos nove anos, eu usei álcool na casa de um amigo meu, foi o meu primeiro “porre”. Isso foi se tornando comum. Antes era apenas nos finais de semana, mas depois de um tempo, se agravou. Chegou a ponto de levarmos bebida ao colégio ou, até mesmo, faltávamos às aulas para bebermos. Com doze anos usei pela primeira vez a maconha. Depois disso, comecei a usar psicotrópicos: Rivotril, Artane (conhecido como “aranha”). Quando eu tinha dezenove anos, estava em um show e um amigo me chamou para fumar um “baseado”. Quando traguei, percebi que não era maconha. Ele me disse que era crack. Logo depois fiquei um bom tempo desacordado, mas, mesmo assim, continuei a usar. No começo eu conseguia controlar a quantidade, mas depois se tornou algo incontrolável.
CUFA Ceará: Você tinha o uso de drogas como algum refúgio? E hoje, como você consegue substituir esse “apoio emocional”?
S.M.: Sim, por eu não aceitar a minha opção sexual e ter sofrido violência doméstica, eu me sentia muito triste e o consumo de drogas me ajudava a esquecer esses problemas. Quando meu pai faleceu, passei a usar excessivamente. Foi o ponto mais crítico da minha dependência. Hoje, o prazer que eu tinha ao usar o crack foi totalmente transferido para outras atividades, como sair com os amigos, trabalhar, namorar e, assim, continuo me divertindo como antes.
CUFA Ceará: Dizem que a pior parte da recuperação é a abstinência. Como você passou por ela?
S.M.: Foi uma situação muito difícil, já que meu organismo estava condicionado, desde os nove até os vinte e cinco anos de idade, ao uso de drogas. Quando deixei de usar todas aquelas substâncias eu sofri muito. Como dizem nos Narcóticos Anônimos, “a dor da retirada pode ser física ou psicológica”. No meu caso, foi psicológica. Passei um mês sofrendo muito com a abstinência do crack.
CUFA Ceará: O que foi mais importante durante a sua recuperação?
S.M.: O fato dos meus familiares não desistirem de mim, principalmente a minha mãe, que sempre esteve ao meu lado, me apoiando. Os N.A. também foram muito importantes, por também me darem apoio e me ajudarem a reconquistar o meu amor-próprio.
CUFA Ceará: Qual a sua opinião em relação ao fato de as igrejas, principalmente as evangélicas, conseguirem mais êxito na recuperação de dependentes químicos?
S.M.: Acho que as igrejas têm, sim, sua importância para a ajuda espiritual, porém, elas sozinhas não têm capacidade de ajudar totalmente os dependentes, já que também é necessária a ajuda psicológica aos dependentes e seus familiares. Algumas igrejas acreditam na cura do vício. É um fato muito delicado, pois o dependente químico terá que superar o vício durante toda a sua vida.
CUFA Ceará: Qual a principal diferença em relação à dependência química e o efeito do consumo do crack em relação as outras drogas?
S.M.: Eu considero que a diferença do crack para as outras drogas é a sua composição e que, por ser uma droga química, a sua dependência é muito mais acelerada e potencializada. Diferenciando também o uso do crack em cachimbos ou como cigarros em relação ao uso em latas de alumínio, que também são usadas como cachimbos, porém, pela mistura da droga com a tinta da lata e outras substâncias, o efeito fica ainda mais potencializado.
CUFA Ceará: No documentário “Selva de Pedra, a Fortaleza Noiada”, durante o seu depoimento, você disse que para conseguir parar de consumir drogas era necessário que você “se aceitasse como negro e homossexual”. Morando no Ceará, um dos estados mais racistas e homofóbicos do Brasil, você enfrentou alguma dificuldade deste tipo na sua relação com a sociedade?
S.M.: Sim, principalmente comigo mesmo. Demorou um bom tempo para que eu me aceitasse como realmente sou: homossexual, negro e morador de uma favela. Percebi que a única pessoa que precisa me aceitar sou eu. Não posso manipular uma personalidade que não é minha para me tornar o padrão da sociedade. Ser eu mesmo me torna feliz, e isso basta.
CUFA Ceará: Você frequenta os Narcóticos Anônimos? Qual a importância da entidade na sua recuperação?
S.M.: Frequentei e ainda frequento, eles me ajudaram muito durante a minha recuperação. Principalmente durante o tempo de abstinência, quando eu mais sofri , eles foram fundamentais para que eu não tivesse uma recaída. Todos os participantes da irmandade eram muito solidários.
CUFA Ceará: Qual a sua opinião em relação à legalização das drogas? Você acha que isso poderia influenciar um aumento do uso?
S.M.: Eu acho que a discussão não deveria ser levada para esse âmbito, pois, com a legalização, novos e mais pontos-de-venda sugeririam. Não é aumentando a quantidade de oferta que iríamos diminuir a taxa de consumo. Nesse sentido, eu sou contra. Acho que deveria haver a descriminação do uso.
Edição: Max Krichanã
Coordenação de Comunicação CUFA Ceará
Junho de 2010